Por José Carlos
Castro Sanches
“Como não
amar corujas!
Quando
você olha para os olhos de uma coruja, é como se ela arrancasse de dentro de
você todos os seus segredos mais obscuros e te libertasse dos maiores medos, é
como se estivesse te ensinando a não temer a nada e a ninguém! ”
(Karolyne Reis)
No intervalo de um treinamento,
recebi uma mensagem da minha esposa, com uma foto: “meu bem, veja o filhote de
coruja que encontrei no quintal da nossa casa”. Amo a natureza! A mensagem e,
principalmente, a linda imagem do filhote de coruja me alegraram naquela iluminada
manhã de 11 de março de 2020.
Fiquei a observar atentamente a
fotografia daquele animal de olhos esbugalhados e com asas abertas, sobre um
pano amarelo que parecia um lençol, em posição de voar, porém, sem habilidade,
debruçado sobre a cerca viva dos arbustos que rodeiam a minha casa, como se
fosse o seu ninho confortável, naquele maravilhoso quintal que me encanta e
fascina pela simplicidade da natureza que o constitui: grama, árvores,
arbustos, galhos, folhas, flores, areia seca ou molhada, sol e lua, às vezes os
cantos dos pássaros e o meu sapo de estimação que, ao final da tarde, sempre
aparece para nos cumprimentar. E eu, que os observo com amor e gratidão pela
oportunidade única e dom que Deus me deu de contemplar o mundo com um olhar de
poeta.
Fiquei a me perguntar: por que a
coruja escolheu o quintal da minha casa para fazer o seu ninho e dar à luz o
seu filhote? Será que sou confiável, a ponto de aquela ave mãe – soberana da
noite, que para muitos povos significa mistério, inteligência, sabedoria e
conhecimento – oferecer o seu próprio filho à minha guarda?
E será que, mesmo com a
capacidade de enxergar por meio da escuridão, conseguindo ver o que os outros
não veem, viu em minha casa um lugar seguro para a reprodução? Só Deus sabe
responder!
O que deve ter “pensado” aquela
indefesa corujinha, quando foi flagrada naquela agonia de não poder voar diante
de humanos, nem sempre racionais e sensíveis? Será que o seu nascimento ocorreu
durante o dia? Ou à noite? Na chuva ou ao sol? Nem posso imaginar!
Deve ter rompido a casca do ovo à
noite, porque os gregos consideravam a noite o momento propício para o
pensamento filosófico; por sua característica de animal notívago, era também
vista pelos gregos como símbolo da busca pelo conhecimento. Pela “cara” da
corujinha, era inteligente a ponto de saber escolher a hora certa para sair da
casca (escuridão) e se apresentar para o mundo (luz), nem sempre acolhedor para
os animais.
Imaginem se a coruja soubesse que
havia uma tradição que dizia: “Quem come carne de coruja adquire seus dons de
previsão e clarividências, mostrando poderes divinatórios”. Certamente, não
escolheria um lugar próximo aos homens para a procriação dos filhotes.
Apesar de sabermos que a coruja
simboliza a reflexão, o conhecimento racional e intuitivo e que, na mitologia grega,
Athena, a deusa da sabedoria, tinha a coruja como símbolo, também sabemos que
os homens perderam a sensibilidade para a preservação da fauna e da flora.
Enquanto todos dormem, a coruja
fica acordada, com os olhos arregalados, vigilante e atenta aos barulhos da
noite. Por isso, representa para muitas culturas uma poderosa e profunda
conhecedora do oculto. Deve conhecer mais do fundo do meu quintal que eu!
Quem sabe ela tenha chegado à
minha casa para revelar-me algum segredo, para que eu possa ser um homem
melhor, perceber os animais como uma benção divina e, em vez de maltratá-los ou
exterminá-los, me ocupar em cuidar e protegê-los, para que meus netos, bisnetos
e as futuras gerações também possam desfrutar da beleza ingênua de uma coruja,
acuada, com asas, mas sem poder voar, no fundo do quintal.
Este animal tão especial, entre
todas as suas características, ainda tem a particularidade de conseguir girar o
pescoço em até 270º para observar algo ao seu redor, permanecendo com o resto
do corpo sem o menor movimento. Também tem a grande capacidade de visão e
audição que torna as corujas exímias caçadoras. Quem sabe estava a me proteger
enquanto eu dormia com minha família?
As corujas são encontradas em
todos os continentes, com exceção da Antártida. Atualmente, são descritas cerca
de 210 espécies de corujas, das quais 24 já foram registradas no Brasil. Mas,
não podemos baixar a guarda, porque os predadores humanos estão por todas as
partes. Ontem mesmo vi uma chinesa, ao encontrar um ninho com três filhotes de
pássaros, comê-los como se fossem um pedaço de pão, com a maior satisfação, sem
demonstrar remorso. Fiquei atônito com a atitude daquela senhora pela conduta
que parece normal naquele país! Nesse ritmo, em breve não teremos mais ninhos,
nem pássaros e, certamente, passaremos por maiores dificuldades.
As corujas apresentam uma grande
variação de tamanho, sendo que no Brasil temos desde os pequenos caburés (cerca
de 60 g) até os jucurutus (Bubo
virginianus), com cerca de 1 kg.
Roedores silvestres e insetos
constituem as principais presas da maioria das corujas. Os olhos dessas aves
são grandes e voltados para frente. Veem muito bem tanto durante o dia quanto
durante a noite, porém, são incapazes de enxergar na ausência total de luz.
A audição também é muito bem
desenvolvida e muito utilizada na caça. Na maioria das vezes, a presa é
detectada pela coruja por meio dos ruídos produzidos durante a locomoção no
solo ou na vegetação. Possuem bicos curvos e garras muito fortes, com unhas
encurvadas e afiadas para capturar e matar as presas, que na maioria das vezes
serão engolidas inteiras. Mas, o filhote indefeso e solitário estava em apuros.
No dia seguinte, ao visitar o quintal,
não mais encontrei a “corujinha”. Não sei o destino daquele animal
aparentemente inofensivo, de olhar penetrante, que se apresentou por um dia em
minha casa.
Talvez a sua única missão fosse
me fazer refletir sobre a vida dos animais silvestres – para que diante da
reflexão pudesse escrever este conto e compartilhar com os leitores, fazendo-os
perceber que o nosso papel na Terra, além da sobrevivência, é preservar a
natureza bela que nos alimenta, inspira e permite viver os poucos dias de
passagem por este planeta.
Se me perguntarem onde está a
“corujinha” que me ensinou a amar, ainda mais, todas as corujas e por extensão
os humanos: “Estará viva ou morta? ”. Eu, triste, direi: “Não sei! ”.
“Talvez a morte tenha mais
segredos para nos revelar que a vida. ” (Gustave Flaubert)
José Carlos Castro Sanches
É químico, professor, escritor,
cronista e poeta maranhense.
Visite o site: falasanches.com e a página
Fala, Sanches (Facebook).
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lindo conto! inspirador
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