Pular para o conteúdo principal

Quarentena literária com Machado de Assis


Nesse período de quarentena, buscamos maneiras de ocuparmos a mente entre o home office e os horários ociosos. Procuramos intercalar os momentos para mantermos a nossa saúde mental, haja vista que, perante o bombardeio de informações sobre a pandemia e a proliferação do novo coronavírus, bate uma sensação de pavor, ansiedade e insegurança. Então, quando dou uma parada nos afazeres profissionais, mergulho nas minhas leituras. Como desde cedo adquirir o hábito salutar de ler, diversifico os gêneros textuais a fim de potencializar o poder transformador da leitura.
Nesses quase trinta dias de confinamento compulsório, tenho lido ensaios, artigos científicos sobre educação matemática e geografia, memórias ararienses, e, claro, poemas. Vasculhando a internet, navegando por blogs e sites literários, encontrei um soneto de Machado de Assis intitulado “Círculo Vicioso”, um poema complexos, desafiador e rebuscado, típico dos textos do nosso escritor-maior. Após fazer a leitura e a releitura do soneto, destaquei algumas palavras e fui buscar o significado no dicionário, com o intuito de entender as entrelinhas do belíssimo texto poético machadiano. Eis, a seguir, o soneto “Círculo Vicioso”, com uma breve reflexão acerca desse maravilhoso texto de Machado de Assis.

CÍRCULO VICIOSO
(Machado de Assis)

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

No belo poema, o vaga-lume quer ser a estrela, a estrela quer ser a lua, a lua quer ser o sol e o sol quer ser o vaga-lume. Ao seu final, o texto volta ao início. Daí o título “círculo vicioso”. Mas o texto nos traz outras tantas reflexões. Uma delas é a questão de nunca estarmos satisfeitos com o que somos ou que temos, ou seja, a insatisfação torna-se evidente no texto, onde até o sol, astro-rei do nosso sistema solar, quer ser um pequeno vaga-lume: “por que não nasci eu um simples vaga-lume?", indagou o rei sol. Círculo Vicioso nos leva a refletir sobre a inveja. “A vida do vizinho é melhor do que a minha”. Porém, a inveja, quando se torna força-motriz, ela pode nos impulsionar para a concretização dos nossos projetos. No soneto, a questão do poder também nos leva a uma reflexão. O sol, todo-poderoso, carregado de hélio e hidrogênio, acha-se entediado em dominar a abóbada celeste, aí nos dá, também, uma lição de humildade.

Ah, que leitura maravilhosa eu fiz! Machado de Assis mostra a sua grandeza literária também através da poesia. Por sinal, o lado poético de Machado é pouco explorado e até pouco conhecido por muitos. Machado de Assis, negro, pobre, gago, se tornou um gênio. Um gênio construído pela leitura. Inspire-se! Viva Machado de Assis!

BREVÍSSIMO PERFIL BIOGRÁFICO DE MACHADO DE ASSIS

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho 1839 e morreu em 29 de setembro 1908, Rio de Janeiro. Foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional em todos os tempos. Fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), sendo o primeiro presidente da entidade


Adenildo Bezerra

Adenildo Bezerra é arariense. Professor, é licenciado em Matemática e especialista em Docência do Ensino Superior. É membro fundador e atual presidente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências (ALAC) e do Instituto Histórico e Geográfico de Arari (IHGA). Autor de três livros e participante de diversas coletâneas literárias. 
Facebook: /adenildo25
Instagram: @bezerra_adenildo
E-mail: adenildo25@gmail.com





Comentários

  1. Lindo poema machadiano! Sensível e bela a percepção do nosso leitor e autor arariense a respeito o poema reportado. Parabéns, nobre Adenildo Bezerra! Eu adorei o post.

    ResponderExcluir
  2. Que bom. Um poema fantástico de Machado de Assis. Obrigado, Cleilson.

    ResponderExcluir
  3. Gostei muito da análise sensível! Parabéns

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ser escritor

“Escrever e ler são formas de fazer amor. O escritor não escreve com intenções didático – pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres em literatura ou são de vida curta ou são de vida longa e tediosa” (Rubem Alves) Dedico esta crônica a todos os escritores em especial aos da Academia Maranhense de Letras – AML e Academia Luminense de Letras – ALPL, da qual sou membro efetivo. Em 19 de setembro, dia do Teatro Nacional e nascimento de Paulo Freire, tive o privilégio de participar de uma reunião com os imortais da Academia Maranhense de Letras – AML. Escritores que compõem a entidade literária máxima do estado do Maranhão, fundada em 10 de agosto de 1908. Estavam presentes: Sebastião Moreira Duarte, Manoel Aureliano Neto, Sebastião Jorge, José Ribamar Ewerton Neto, Benedito Bogéa Buzar, Elsion Coutinho, Carlos Thadeu Pinheiro Gaspar, Alex Brasil, José Carlos Sousa Silva, Lourival de Jesus Serejo S...

A bússula perdida

Por José Carlos Castro Sanches “O verdadeiro heroísmo consiste em persistir por mais um momento quando tudo parece perdido. ” (W. F. Grenfel) Eu andava à procura de uma referência para saber o caminho seguro que deveria seguir. Caminhava entre espinhos, flores, pregos e algodão. Suspirava, respirava, cantava, chorava, agradecia e reclamava tudo era possível naquela viagem solitária que fazia comigo mesmo. O horizonte era belo, o sol ardente, o vento soprava favorável, depois tudo ficava nublado, as nuvens encobriam o sol e o vento espreitava o tempo com um olhar de quem despreza a realidade e se acolhe na clausura. E a terra girava em volta do sol, as estrelas na noite nos lembravam os reis magos, a lua cheia refletia a luz com uma simpatia indescritível e bela, depois o pesadelo chegava e mostrava que tudo parecia diferente do real, o mundo dava cambalhotas desordenadas por caminhos tortuosos, o povo sofria as mazelas da Covid-19, mas existia uma esperança na cura, na volta da...

Quarentena: clausura, exílio e poesia

Num certo dia do mês de julho de 1843, quando em Coimbra e saudoso, em relação a sua terra natal, o grande poeta maranhense achou na poesia o refrigério da alma. Ao se sentir exilado em Portugal, num momento em que o Brasil Colônia rompia com a Coroa Portuguesa, exaltou os valores naturais do seu berço, o Maranhão. Sim, refiro-me ao poema Canção do Exílio, um dos mais emblemáticos do Romantismo, na Literatura Brasileira, como também o foi seu autor, Gonçalves Dias. Daquela saudosa e inspiradora data, nascia e se eternizava um belo poema de um poeta igualmente imortal. Paisagem típica da Baixada Maranhense, com seus campos inundáveis e casas de sobrados do Pantanal do Maranhão. Foto: SBPC/Baixaki Hoje, sinto-me saudoso como o poeta, mas exilado da minha terra na clausura do meu próprio lar, confinado que estou pelo distanciamento social da pandemia da Civid-19, que optei por transformar em isolamento, para o meu próprio bem e dos meus pais, já idosos, logo, pertencentes ao grupo de ...