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Revisitando a história da Amazônia pré-colonial


 
CAPA DA REVISTA NATIONAL GEOGRAPHIC DE MAIO/2010
Nesta terça-feira, 26 de maio do ano em curso, ano fatídico, por sinal, ao acordar de manhã, fui pegar um livro na minha simples estante para uma boa leitura matinal. Meu olhar, então, fitou na minha coleção de revistas da National Geographic. Esqueci o livro por instantes, e comecei a revisitar as minhas raridades. Deparei-me com uma edição de maio de 2010, que estampava na inconfundível capa de bordas amarelas a foto de um índio e a seguinte manchete: “BRASIL ANO 1000 – sim, o eldorado era aqui – a vida e a arte dos 5 milhões de habitantes da floresta amazônica” (Imagem da capa da revista acima).
Já havia lido essa magnífica matéria há dez anos. De 2006 a 2015, fui assinante da National Geographic e, obviamente, li todas as edições durante a vigência da minha assinatura. Esse exemplar, por estampar essa grandiosa matéria, tornou-se um dos meus preferidos. Lembro da brilhante viagem que fiz pela história do nosso povo original: os índios brasileiros.
A matéria fala dos povos pré-colonizados que habitaram a região amazônica, sobretudo. Logo na abertura do artigo, lemos: “AMAZÔNIA ANO 1000 – enquanto o velho mundo vivia nas trevas da Baixa Idade Média, civilizações experimentavam no Brasil um florescimento cultural. Contemporâneos dos Incas e dos Maias, eram autores de uma arte sofisticada. Só agora a arqueologia começa a decifrar quem foram esses antigos habitantes da terra brasilis”.
Os povos pré-cabralianos do Brasil, ou seja, os povos que viviam no território brasileiro antes da chegada de Cabral, em 1500, produziam cerâmicas com padrões sofisticados em Marajó e nas regiões de Manaus e Santarém, esta última, segundo o artigo publicado, talvez seja a cidade mais antiga do Brasil.
Ao longo da desembocadura do rio Tapajós, ao redor do ano 1000, no mesmo local em que hoje está Santarém, havia talvez outra cidade, parcialmente destruída pelo próprio crescimento de sua equivalente moderna. Se pensarmos sobre esse aspecto, Santarém é a cidade mais antiga do Brasil e talvez a única cujas origens remontam a nossa história pré-colonial. Neste sentido, ela se junta à companhia ilustre de Cusco, no Peru, a antiga capital do Império Inca, ou da cidade do México, erguida sobre Tenochtitlán dos Astecas.
É também na região de Santarém que se encontraram o que talvez sejam as cerâmicas mais antigas das Américas, nos sítios de Taperinha e da Caverna da Pedra Pintada, com datas que podem chegar a 6000 a.C., mais antigas que as encontradas na foz do rio Amazonas. Assim, tradicionalmente, os arqueólogos correlacionam o início da produção cerâmica com o advento da agricultura. Segundo o artigo, parece claro que o início da domesticação de plantas antecedeu o início da produção de cerâmica na região amazônica.
É difícil plantar na Amazônia. Quando se pensa na agricultura pré-colonial, é comum que se esqueça de um aspecto tecnológico fundamental: não havia instrumentos de metal para a derrubada de áreas de cultivo. Todo o trabalho de derrubada, limpeza, preparação e cultivo era feito com objetos de pedra lascada ou polida, madeira, mãos e fogo.
Essas incríveis descobertas arqueológicas na Amazônia, trazem elementos novos e grandiosos para a nossa história, principalmente para a história dos povos indígenas, que foram conquistados brutalmente e tiveram a sua verdadeira cultura banalizada e desvirtuada. A velocidade frenética de ocupação da região coloca pressão sobre o patrimônio arqueológico. A ocupação desenfreada da Amazônia pode destruir não só o futuro, mas também o passado da região.
Reler esse auspicioso artigo, de maio de 2010, da National Geographic, foi uma volta maravilhosa ao passado. Mergulhei de corpo e alma nessa leitura. Como é bom conhecer e entender a história. Uma história que não se conhece a contento nos bancos escolares. Saber que na imensa Amazônia existiram povos com uma organização social e meios de produção sofisticados para a época, me deixou feliz e ainda mais motivado a continuar buscando mais informações sobre essas importantes descobertas da arqueologia brasileira na floresta amazônica. 

FONTE: REVISTA NATIONAL GEOGRAPHIC, maio de 2010, p. 30-49. 

 Adenildo Bezerra
Adenildo Bezerra é arariense. Professor, é graduado em Matemática e especialista em Docência. É membro fundador e atual presidente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências (ALAC). É membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Arari (IHGA). Autor de três livros e participante de diversas coletâneas literárias. 


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Instagram: @ajcbezerra
E-mail: adenildo25@gmail.com






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