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A Escada



A ESCADA
Por José Carlos Castro Sanches
“Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo. ”  (Martin Luther King)
No dia 21 de abril de 2020, feriado nacional em homenagem a Tiradentes, reconhecido como herói nacional e um mártir da Inconfidência Mineira, naquela data ainda não pensávamos que ficaríamos dias, meses, e quiça, anos, guardados a sete chaves em nossos lares fugindo da pandemia do temido coronavírus que viria a tomar conta de todo mundo em poucos dias, trazendo agonia e sofrimento para muitas famílias. Tudo deve ter um propósito, talvez aproximar as pessoas que viviam juntas, mas distantes; no mesmo teto, sem afeto; no eterno pecado, sem exercitar o perdão; presos na solidão da vida efêmera, sem afeição, carinho, emoção e gratidão.
Naquela terça-feira especial, sai de casa com a minha esposa em uma noite serena de lua minguante côncava. A lua estava cada vez menos iluminada no céu noturno, em fase de decrescimento até Lua Nova. Eu acreditava que o céu voltaria a ter a Lua Cheia que inspira os poetas e mantem iluminada a terra nos dias de sua passagem. Visualizava o horizonte belo sentado, nas cadeiras do mirante, frente a uma cerveja gelada, ao lado do meu bem, na expectativa de dias floridos, abençoados com a lua cem por cento visível aos meus olhos de eterno sonhador.
Repentinamente, tive o desejo de descer daquela área confortável; onde ao redor da mesa haviam cadeiras a sobrar pela escassez de clientes no bar, mas havia a esperança de que chegassem para alegrar o ambiente e permitir o sustento daqueles que do labor, retiram o sustento de suas famílias. Para chegar ao térreo, ao nível do mar e pisar na areia desci nada mais que três metros por meio de uma escada orgulhosa, afortunada, de madeira de lei, bem cuidada, que dava gosto de usá-la.
Ao chegar no piso inferior, tinha um grupo musical, alegrando o ambiente, e uma peça iluminada em forma de uma concha; dela nos aproximamos, eu e minha linda dos olhos de mel e pedimos ao garçom para nos prestigiar com uma foto daquele lindo lugar, que guardaríamos com lembrança. Após o ensaio fotográfico, observamos um pouco o local, e, de mãos dadas caminhamos, poucos passos pelo recinto aconchegante em seguida, decidimos voltar para o mirante, afim de nos sentarmos à mesa para usufruir um pouco mais daquele momento único.
Durante o retorno me surpreendi ao perceber que naquela linda escada, em cada degrau havia uma frase: no primeiro – “suba o primeiro”; no segundo – “degrau com fé”.; no terceiro – “não é necessário”; no quarto – “que você veja toda a escada”; no quinto – “dê o primeiro passo”; no sexto – “#conchasbar”; no sétimo – “@conchasbarerestaurante”; no oitavo – “vontade”; no nono – “alegria”; no décimo – “sem inscrição”; no decimo primeiro – “capacidade”; e no décimo segundo: “de superação”.
Naquele instante eu havia encontrado a razão de ter ido àquele lugar naquela noite: a escada queria me passar uma mensagem para que não desista dos meus sonhos, tenha capacidade de enfrentar as adversidades de frente; subindo degrau a degrau chegarei, onde desejo, sem necessariamente ver toda a escada, mas com fé serei capaz de superar os desafios e vencer as batalhas que hão de vir em minha vida.
O degrau sem inscrição, me disse que também tenho capacidade para reorientar os meus planos, sou capaz de criar novas possibilidades para preencher os vazios que porventura surgiram no meio do caminho. Como digo nada ocorre por acaso. “O degrau de uma escada por mais simples que seja, não serve simplesmente para ficarmos em cima dele, destina-se a sustentar o pé de um homem pelo tempo suficiente para que ele coloque o outro um pouco mais alto – como disse Thomas Huxley. ”
Assim, encontrei naquela noite motivos para escrever esta crônica que certamente trará inúmeras outras lições de vida para os milhares de leitores ao redor do mundo. E mais uma vez concordo com o que disse Friedrich Schiller - “Nada existe tão alto que o homem, com força de vontade, não possa apoiar a sua escada.” Todavia, devo admitir que Stephen Covey tinha razão quando disse “Se a escada não estiver apoiada na parede correta, cada degrau que subimos é um passo a mais para um lugar equivocado. ”
Apesar de alguns acharem que é fácil dispensar a escada depois que se chega ao topo, é necessário antes de tudo, subir e chegar onde desejamos. Se fizermos como Sócrates sugere poderá ser mais fácil atingir o pódio, basta transformar as pedras que você tropeça nas pedras da sua escada.
“Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!”
(Fernando Sabino)
José Carlos Castro Sanches
É químico, professor, escritor, cronista e poeta maranhense.
Membro Efetivo da Academia Luminense de Letras – ALPL
São Luís, 10 de junho de 2020.
Visite o site falasanches.com e página Fala, Sanches (Facebook) e conheça o nosso trabalho.
Adquira os Livros da Tríade Sancheana: Colheita Peregrina, Tenho Pressa e A Jangada Passou, na Livraria AMEI do São Luís Shopping ou através do acesso à loja online www.ameilivraria.com.
NOTA: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches, com crédito aos autores e fontes citadas, e está licenciada com a licença JCS10.06.2020. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária porque ocorreu plágio de algumas crônicas do autor, por outra pessoa que queria assumir a autoria da sua obra, sem a devida permissão – contrariando o direito à propriedade intelectual amparado pela lei nº 9.610/98 que confere ao autor Direitos patrimoniais e morais da sua obra.





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